Úlcera arterial: por que não cicatriza e quando há risco de amputação?

As úlceras arteriais são feridas causadas pela falta de circulação sanguínea adequada, geralmente decorrente de uma obstrução arterial grave nos membros inferiores. Diferentemente das úlceras venosas, que têm evolução mais lenta e tendem a drenar secreção, as úlceras arteriais são dolorosas, secas, com bordas bem definidas e difícil cicatrização.

Elas representam uma manifestação avançada da doença arterial obstrutiva periférica (DAOP), e quando não tratadas adequadamente, podem evoluir para necrose, infecção e amputação. Por isso, reconhecer os sinais precoces e buscar atendimento especializado é fundamental para evitar complicações.

Neste artigo, você vai entender por que a úlcera arterial não cicatriza, como identificá-la e em quais situações o risco de amputação se torna real.

Por que a úlcera arterial não cicatriza?

A cicatrização de qualquer ferida depende de uma boa oxigenação e de nutrientes levados pelo sangue até o local lesionado. No caso da úlcera arterial, há uma obstrução significativa nas artérias que irrigam o membro afetado, impedindo a chegada de sangue suficiente para a regeneração dos tecidos.

Essa obstrução geralmente é causada por placas de gordura (aterosclerose) que se acumulam ao longo do tempo, especialmente em pacientes com fatores de risco como:

Sem o fluxo sanguíneo adequado, o organismo não consegue promover os processos naturais de reparo, e a ferida permanece aberta e dolorosa, mesmo com curativos e cuidados locais.

Além disso, a má perfusão aumenta o risco de infecção, tornando a situação ainda mais delicada.

Como identificar uma úlcera arterial?

As úlceras arteriais costumam apresentar algumas características típicas que as diferenciam de outros tipos de feridas:

  • Localização: geralmente em regiões distais (dedos dos pés, dorso do pé, tornozelos ou calcanhares);
  • Aparência: ferida seca, de coloração pálida ou escura, com bordas regulares e fundo necrótico;
  • Dor intensa: especialmente à noite ou ao elevar as pernas;
  • Pele ao redor: fria e pálida, com ausência de pelos e unhas espessas;
  • Pulsos enfraquecidos ou ausentes no membro afetado.

Esses sinais devem sempre ser avaliados por um cirurgião vascular, que fará a investigação para confirmar o diagnóstico e definir a melhor abordagem terapêutica.

Quando a úlcera arterial pode levar à amputação?

O risco de amputação existe quando a isquemia (falta de oxigenação) é tão grave que os tecidos começam a morrer, um processo chamado de necrose isquêmica. A presença de infecção associada à necrose aumenta ainda mais esse risco.

Situações que podem exigir amputação incluem:

  • Infecções profundas e incontroláveis (celulite, fasceíte necrosante);
  • Necrose extensa de pele e músculos;
  • Impossibilidade de revascularização eficaz (casos muito avançados).

No entanto, a amputação é sempre considerada como última alternativa, após esgotadas as tentativas de reverter a isquemia ou conter a infecção.

Qual o tratamento para úlcera arterial?

O tratamento da úlcera arterial visa restabelecer o fluxo sanguíneo arterial para o membro afetado. As opções incluem:

Revascularização cirúrgica

A cirurgia de revascularização consiste em criar um novo caminho para o sangue chegar ao local comprometido, seja por meio de uma ponte com veia do próprio paciente, seja com próteses sintéticas. É indicada principalmente quando a obstrução é extensa e em pacientes com boa condição clínica.

Angioplastia com stent

Procedimento minimamente invasivo feito por cateterismo, em que um balão é inflado dentro da artéria obstruída para desobstruí-la, podendo ser implantado um stent (tubo metálico) para manter o vaso aberto. É uma excelente opção em casos selecionados, com boa taxa de sucesso.

Cuidados locais com a ferida

Enquanto se prepara ou aguarda a revascularização, o paciente deve manter a úlcera limpa e protegida com curativos apropriados, que não agravem a isquemia. O uso de pomadas e desbridamentos agressivos deve ser evitado sem liberação prévia do vascular.

Controle dos fatores de risco

O sucesso do tratamento depende também de um controle rigoroso do diabetes, da hipertensão, do colesterol e da cessação do tabagismo. Mudanças no estilo de vida são essenciais para evitar novas obstruções.

Como prevenir a úlcera arterial?

A prevenção começa com a atenção aos sinais precoces da doença arterial periférica, como dor nas pernas ao caminhar (claudicação intermitente) ou sensação de frio nos pés.

Outras medidas importantes:

  • Parar de fumar imediatamente;

  • Controlar a glicemia, a pressão e o colesterol;

  • Manter uma alimentação equilibrada 

  • Praticar exercícios físicos regularmente (com liberação médica);

  • Evitar traumas e cortes nos pés

Fazer um check-up vascular pode identificar obstruções antes mesmo dos sintomas aparecerem, permitindo intervenção precoce e evitando complicações.

Conclusão

A úlcera arterial é uma manifestação grave e visível de uma obstrução arterial avançada. Sua principal característica é a dificuldade extrema de cicatrização, causada pela falta de irrigação sanguínea. Quando negligenciada, pode evoluir para necrose, infecção e, em casos extremos, amputação do membro afetado.

A boa notícia é que, com o diagnóstico precoce e a revascularização adequada, é possível salvar o membro e promover a cicatrização da ferida. Por isso, se você apresenta uma ferida dolorosa, seca e que não cicatriza, agende uma consulta o quanto antes.

Dr. Felipe Barão

Angiologista, Cirurgião Vascular e Endovascular.

CRM: 130055 | RQE: 44741

Formado pela Universidade de São Paulo (USP), realizou Residência Médica em Cirurgia Geral e Cirurgia Vascular no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), onde também concluiu o Doutorado e o Pós-Doutorado. Complementou sua formação com um fellowship internacional em Cirurgia Vascular e Endovascular na Universidade do Texas, em Dallas (EUA). Possui títulos de especialista em Cirurgia Vascular e em Angiorradiologia e Cirurgia Endovascular, concedidos pela Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV) e pelo Colégio Brasileiro de Radiologia (CBR). É membro da Society for Vascular Surgery (EUA) e da SBACV.
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